terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PONTA PÉ


“Tudo o que você precisa é amor”.
(se na primeira pessoa não for ficção daquilo que realmente é, então não sei o que é ficção)

Quando ouvi esta frase eu me pus a perguntar o que isso significa. É algo tão estranho e tão obvio pra mim que eu me perco. Neste instante eu entendi que tudo aquilo que eu achava na verdade não era... E o que era então? A imagem que vinha em minha mente era como se caísse na cabeça de um cidadão uma rolha e ele por nunca ter tido contato com tal simples objeto, não o reconhecesse. Então eu me pus a procurar... nos outros, nas paixões, nos contatos, no sexo, no cheiro, uma fileira de corpos sem RG e sem face. Algumas rosas apareceram no meio desse espinhal, mas ainda eu não estava preparado para enxergá-las. Então eu me dediquei ao físico, pois para se ter amor você precisa ser belo, acreditei. Comecei a caminhar, em pouco tempo estava na academia, natação, musculação, condicionamento físico e quilos e mais quilos escorriam pela esteira abaixo. Quase no “padrão” percebi que não, não era isso que estava procurando. Neste instante eu tive a certeza absoluta que para conseguir aquilo que eu realmente desejava (mesmo sabendo que muitas vezes não tinha idéia do que seria), eu teria que ser um cara bem sucedido. Foi neste momento que abandonei tudo, o trabalho que me dilacerava, burro, burocrático e sem algo maior, dinheiro, apenas dinheiro. E me atirei na profissão que tinha escolhido pra mim e viajei em mundos até então desconhecidos, em classes das mais variadas, em gêneros, dos inocentes aos mais infames e... me perdi nas crônicas de tele-novela. Um dia desses acordei, quando não se quer mais nada, e demorei muito tempo para me desvencilhar dos travesseiros e cobertores. Meio tonto ainda abri a geladeira, um copo de leite, uma colher de doce de leite, uma banana e uma garfada no bolo embolorado. Liguei o som e fui tomar banho. Foi quando eu me olhei no espelho e não me reconheci. O que eu via era um ser apático e apavorante, tão sem vida, sem forças como eu nunca tinha visto. Percebi que estava sozinho, sem dinheiro, sem carreira, sem o corpo malhado, sem os outros que por tantas noites amenizaram minhas lamurias, sem nada. Então adoeci, e me entreguei ao mais profundo sofrimento. Não, não Hesitei e me fechei em minha alcova e ali permaneci durante muito tempo. Aos poucos foram aparecendo às chagas, e uma a uma eu fui cutucando, limpando, cuidando e curando. Procurei-me nas fotos, nos livros, nos perfumes, nos artigos de jornais, nas cartas e.... nada. Nada de mim. Quando mais eu me revisitava mais triste se tornavam os meus dias, mais vazio eu me sentia. Um encontro muito tempo esperado me colocou diante de pessoas que conseguiam olhar nos meus olhos e me ver, assim, como eu realmente era. Amigos. A menina dos meus olhos havia sido liberta, e de vez, e pra vida. Neste tempo de permanência “fodástica” de minhas férias eu encontrei aquilo que estava procurando, simples assim, e essa imagem nunca mais sairá da minha cabeça: Um homem, uma mulher e uma menina-flor, que juntos brincavam na beira do mar. Neste instante eu entendi a frase que tanto me atormentou, e que me fez hoje escrever, e percebi que o que tanto procurava esteve o tempo todo comigo, dentro de mim, preso, frágil e com medo. Dez dias para o amor nascer em mim, cinco minutos de você, milhões de segundos interligados de felicidade. Durmo feliz e certo do dia de amanhã para todos, mesmo crente que muitos não o “Verão”. A todos um novo ano. E se posso pedir algo, desejo a vocês o meu maior presente: O silêncio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Tc...


Oi ...
Oi...
Td bom?
Td e vc?
Tc de onde?
SP e vc?
Idem.
Idade?
35 e vc?
42.
Procura o que?
Ah sei lá..., a principio uma conversa..
Ah.. deixa quieto.
Mas...
*
Oi...
Oi...
Tc de onde?
Cara, quero sexo e vc?
Ah..., deixa quieto.
*
Oi...
Oi...
Td bem?
Td e vc?
Bem...tc de onde?
SP e vc?
Ah cara, muito longe to em Floripa, boa sorte.
*
Oi...
Ola.
Td bem?
Otimo, tc de Minas, solteiro, 1,85, 75kg, atlético e você?
Deixa pra lá, muito normal pra você.
*
Oi....
Oi....
Oi....
(silêncio)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

- Não Trisca em Mim!


Os gritos vieram de um carro com faróis acesso parado ao lado de uma arvore centenária, umas das ultimas que se pode encontrar no centro da cidade. De uma porta vestindo um pequeno vestido azul claro prateado, cabelos longos pretos e bagunçados, maquiagem forte quase que criando uma nova face e sapatos de salto alto nas mãos; “ELA” saiu correndo afobada. Da outra porta saiu um rapaz franzino, de calças jeans surradas, camisa bolo branca amarrotada, óculos finos e sapato marrom. ELE era muito branco e ainda mais por estar com uma impressão pálida e uma respiração ofegante.
- Não trisca em mim! Ela disse para ele apontando uma navalha.
- Me devolve o que você me roubou! Enfurecido pediu o rapaz.
- Não roubei nada de você, tá louco?
O rapaz, com muita raiva, partiu para cima dela querendo apanhar algo que lhe pertencia e a mesma novamente apontou a navalha para ele.
- Não trisca em mim, não sou mulher, sou travesti. Ta duvidando? Vou te furar!
- Você me roubou sua ladra. Vou chamar a polícia.
Aos berros começou a clamar por socorro, e por mais que fosse auge de uma madrugada quente de primavera e houvesse muitas pessoas na rua, ninguém ousou em se envolver no que estava acontecendo. E quando mais ele gritava pedindo ajuda, mais a “MENINA” se enfurecia, como se realmente tivesse feito algo de errado, como se realmente tivesse portando consigo algo que não era seu.
- Não trisca em mim, não sou mulher, sou travesti. Ta duvidando? Vou te furar! Repetia sistematicamente, sempre apontando a arma que trazia consigo. Aos poucos as luzes dos apartamentos começaram a acender, os cachorros começaram a uivar mais pessoas surgiram para ver o que estava acontecendo. Neste momento se aproveitando da balburdia e da falta de atenção do rapaz, ela saiu correndo pelas ruas e becos escuros do centro velho. Ele sem saber o que fazer e envergonhado por aquela situação, e mesmo passando muito mal, cada vez mais pálido, mesmo assim entrou em seu carro e saiu cantando pneu em sentido contrário ao dela.
Porta trancada, cadeados de todos os tamanhos, chaves e mais chaves e finalmente só. Largou a bolsa em cima da mesa e foi tomar banho. Suada, precisava tirar de si todas as marcas daquela noite, todos os vestígios do outro preso em seu corpo, cada saliva, cada suor, cada essência perdida no meio de suas pernas. Por trás da pesada maquilagem apareceu um menino com olhar triste, quase melancólico... Abriu a geladeira, retirou um pote de sorvete que ainda estava fechado, abriu e começou a comer. De onde estava, sentado no sofá observava atentamente a sua bolsa na cadeira. Ligou a TV nos seus desenhos prediletos e novamente voltou-se ao sorvete. Quando o pote chegou pela metade, já amolecendo; levantou, pegou a bolsa, sentou novamente, abriu-a e retirou dela um coração totalmente debilitado. Vagarosamente o colocou dentro do pote e o confortou no meio de todo aquele creme. Guardou no refrigerador, desligou a TV e foi dormir.

A.R... 11/12/2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Fuga...(z)


Ele afastou seus ombros delicadamente e levantou.
Ligou o chuveiro e esperou alguns segundos para que aquecesse.
De onde estava, podia admirar o seu corpo espreguiçando. Sorriu!
Ali por um instante ficou parado, como um menino bobo
Ao ganhar um presente tão esperado de Natal.
E lembrou-se de do dia em que se conheceram,
Do primeiro toque, do primeiro beijo.
Das mãos ativas e entrelaçadas no escuro do cinema.
Passaram dias, semanas... Dois meses até o dia de hoje.
Tinha trabalhado o dia inteiro e estava exausto.
E quase no final do expediente recebeu a mensagem que tanto esperava.
E todo o cansaço e peso do dia passaram num segundo.
Decidiram em se encontrar no ponto de ônibus,
Em frente ao mesmo cinema, de sessenta e quatro dias (precisamente) atrás.
Quando chegou buzinou e gentilmente abriu a porta.
- Oi.
- Ola.
E mais nenhuma palavra pelo caminho
Quando chegaram ao (local) deixaram na porta suas identidades.
Despiram-se de qualquer pudor, de qualquer referência.
Como se ali dentro pudessem ser o que quisessem... E podiam.
Entraram e ele deixou sua bolsa numa cadeira ao lado da cama.
Sentou-se sem saber o que dizer.
Tempo parado na altura do olhar.
Emudecidos arriscaram um abraço.
E a cola se deu pelo cheiro.
Então sentiu o mesmo frescor e intensidade da primeira vez.
Pele com pele, pêlo com pêlo.
Um pequeno rio de suor começava a se abrir no meio
Daquelas montanhas rochosas de carne.
Gritos, gemidos, sussurros não eram proibidos.
Mas só o que se podia ouvir era uma respiração forte e quente. Até o fim.
Esparramaram-se lado a lado, desacreditando não ser um só.
Então um adormeceu e outro delicadamente afastou seus ombros e levantou.
Lavou-se com dó, com medo que o se outro escorresse pelo seu corpo
Como uma gota em espuma se arrasta pela pele até alcançar o ralo.
Desligou o chuveiro e correu para apanhar a toalha esquecida no quarto.
Vestiu-se e antes de sair, foi até a cama e sorriu.
Um cafuné, uma carícia e um beijo tímido anunciaram a despedida.
Na cadeira pegou sua bolsa e de lá retirou sua essência preferida.
Banhou-se.
Mais uma espiada...; e saiu.
Dois lances de escada abaixo, uma volta brusca.
Eufórico, abriu a porta e ele ainda estava lá.
Abriu a bolsa, retirou o vidro de perfume, deixou nos pés da cama e partiu.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Egoísmo De Todos Nós


Deste pequeno somos acostumados a sermos individualistas. Temos a NOSSA mamadeira, nosso cobertozinho, nossa “teta da mamãe”. Já na colégio temos que cuidar da nossa lancheira, do nosso material da escola, dos nossos livros, das nossas notas. Mais tarde nosso primeiro amor, nosso vestibular, nossas provas, nossos desejos e nossas conquistas, e nossos isso, nossos aquilo, nossos, nossos, nossos... E quando mais passa o tempo, mais coisas NOSSAS temos que possuir. No mundo capitalista em que vivemos estar em primeiro lugar é estar em voga. Ter todos os olhos voltados para você, se destacar de uma massa consolidada, contabilizada e reconhecida numericamente é como se você ganhasse um selo por não ser apenas mais uma ervilha como todas as outras uniformizadas numa lata de conserva. Nosso egoísmo está inteiramente relacionado às nossas escolhas. A todo o momento somos postos diante as decisões que poderão reverberar em nossa existência e dos que nos cercam. Depois de certo “amadurecimento”, percebemos que nossas escolhas não se resumem mais em escolher um sorvete ou uma bomba de chocolate, uma bicicleta ou um vídeo game. Qualquer ação gera uma reação de proporção inimaginável. Será que para sermos o que queremos ser, ter aquilo que tanto almejamos e viver de forma tranqüila, não conseguimos ser altruístas? Quem já não marcou aquele jantar com um amigo e ficou meia hora decidindo onde comer? Aquele cineminha que depois de tanto discutir acabam escolhendo o primeiro filme mela cueca que estiver passando? Aquela balada que agrade aos gostos distintos? Isso é o egoísmo que não consegue ficar dentro do peito e é fato que a intimidade o libera de forma despudorada e inconseqüente. Chega um momento nas relações humanas, seja ela pessoal, profissional, afetuosa ou romântica que as pessoas não se poupam mais em obedecer aos seus desejos, mesmos que eles sejam separatistas. E não é estranho depois de uma longa viagem, você parar ao lado de quem tanto ama e ver o outro colocar as malas dentro do carro com um destino diferente do seu. Ontem eu descobri algo novo que é o Egoísmo Mental e eles surge com duas facetas. A primeira dela facilmente poderia ser confundida com Inveja, pois é quando a pessoa envenena seus sonhos revelados com um belo sorriso e palavras de carinho e você só consegue perceber isso olhando nos olhos dela. Repare, dificilmente ela olhará nos seus olhos. A outra é quando você divulga algo tão desejado e a pessoa com o mesmo sorriso, as mesmas palavras de carinho e pior olhando nos seus olhos, deseja no fundo d’alma que esse seu sonho não se realize, pois ele automaticamente o afastaria das coisas que ambas tem em comum. O egoísmo é de todos nós, de todos mesmos, eu também tenho os meus, mas já faz tempo eu aprendi a ceder e você?

Antonio Ranieri (27.11.2009)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

DESPERCEBIDO


Ele acordou com a água batendo no ouvido,
Mais um pouco estaria afogado em águas salgadas.
Quando se deu conta, estava sozinho.
Por mais que se esforçasse seu olhar contemplava o vazio.
E ficou com medo.
Pensou em gritar
Mas o mundo a sua volta estava surdo.
Pensou em sair correndo, se manifestar,
Mas suas pernas estavam paralisadas.
Com muito esforço esticou as mãos,
A resposta veio de imediato, o silêncio.
Mas ele só conseguiu perceber no meio da madrugada.
Então começou a chorar, e chorar e chorar,
E ficou com medo.
Medo de se cansar e despercebido afundar em seu próprio sofrimento.
Então teve pena de si mesmo e se lamentou.
E sofreu.
Sofreu pelo tempo perdido.
Pelas vitorias não alcançadas.
Pelos sonhos que a cada dia ficavam para trás.
E pelas frustrações.
Esta palavra a pior de todas.
Hoje ele estava frustrado!
Então teve vergonha de si e decidiu reagir.
De todas as formas tentou ganhar atenção do mundo.
Lutar, não deixar pra trás a “utopia” de menino.
E se esforçou.
E se esforçou se esforçou muito.
Sentiu uma leve fisgada, mas não parou com medo de perder tempo.
E se esforçou mais, e rapidamente começou a suar.
E se esforçou ainda mais, e os sentidos começaram a falhar.
Um a um os seus sentidos, foram cessando sem que ele percebesse.
Sua vontade de vencer, de ser alguém era tanta
Que não percebeu que seus sonhos
Suas ambições
Suas vontades
Tornaram-se maiores que sua própria vida.

A.R – 19/11/2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Até os urubus Riem


Sexta feira 13 é dia de se cuidar.
Tomar banho de sal grosso.
Mas como ele serve de limpeza é bom tomar um de rosas brancas para energizar.
Ascender uma vela para seu anjo da guarda ajuda muito.
Aproveite também e ascenda uma para seu santo preferido.
E uma para ganhar dinheiro, uma para ter saúde e quantas forem necessárias.

O grande desafio de andar hoje na grande metrópole, é fugir dos desagrados.
Se esquivar das escadas é quase impossível numa cidade que vive em reforma.
Passar longe dos gatos pretos morando no centro chega a ser piada.
No bolso: figa, arruda, dente de alho, sal, pimenta, tudo bem enroladinho num patuá.
Qualquer ação para se proteger é importantíssima.

Deste pequeno aprendi em que sexta feira 13 não se pode rir muito,
Pois no dia seguinte sempre vem o choro.
Assim como dizem que na sexta feira santa não se pode comer carne.
Crendices de família que eu nunca ousei desafiar.
Por via das duvidas iniciei meu dia mais sério do que nunca.

Parece que o dia de hoje ta sendo um teste.
Um monte de coisas bizarras acontecendo.
E como permanecer serio num dia todo,
Com tantas “babaguices’ que vemos ou vivenciamos por ai?

Hoje de manhã eu vi uma pessoa se lamentando à outra.
E a outra ria, gargalhava , mais parecia uma bruxa e não só pela aparência.
Menosprezava, ria e se divertia com o sofrimento da outra.
E dizia: “Nossa você precisa se benzer, sair dessa Uruca!”
Percebi no olhar da menina uma tristeza,
Como se fosse inútil, indiretamente pedir ajuda a outra.
Ela então se levantou, mas antes de sair olhou fulminantemente aquela que rolava de rir em sua poltrona pomposa estilo clássico, deixando claro sua “importância”.

Passado algumas horas aquela que ria muito
Estava saindo para o almoço com tal pressa, que seu dedinho do pé esquerdo não acompanhou o ritmo, e não vendo uma mesa a sua frente se estourou todo.
Naquele instante as gargalhadas enfadonhas dela se cessaram, dando espaço para um grito contido, afinal não poderia perder a classe, afinal ela era a comandante do lugar.

Por alguns instantes o silêncio. Mas quando saiu para ir à enfermaria o riso comeu solto.
No canto da sala como se ninguém estivesse notando sua presença, estava à pobre menina com sua profunda tristeza. Ela por sua vez vendo toda aquela cena, ofereceu ajuda. Em nenhum momento sorriu, ou riu do fato ocorrido. Então eu perguntei o porquê ela estava tão seria afinal tinha sido bem engraçado. Ela então me respondeu.
- Porque hoje é sexta feira 13. Tome cuidado, pois hoje até os urubus riem, mas não saem imunes.

Antonio Ranieri