quarta-feira, 16 de junho de 2010

Menino Alegre



Menino Alegre

“Quando eu nasci um anjo torto, desses que vive na sombra disse: - Vai Carlos, ser gauche na vida”
Da poesia de Drummond para o dia de hoje. O que é esse caminho de incertezas que ele aponta? Pergunto-me.
Que menino é esse que habita escondido dentro de nós?
Um menino (é) alegre, quando passa correndo, derrubando pessoas, pulando lixeiras, tropeçando em raízes onduladas que despontam nas calçadas.
Um menino (é) alegre quando sorri num dia de frio, pois sabe que irá pular fogueira. Ou se é calor que se apresenta, sabe que terá um dia correndo pelas ruas, empinando pipas, aproveitando a tão sonhada férias que se aproxima, típico dessa época do ano.
Um menino (é) alegre, quando se contorci feito tatu e se lambuza no tanque de areia, sem se importar com o que os outros vão pensar da sua aparência.
Um menino (se mostra alegre), quando sonhador, faceiro, brincalhão, festeiro, honesto, amigo e querido. Querido pela família, pelos amigos, vizinhos, colegas, professores, por todos, e se não por todos, por muitos, e de verdade, e só isso realmente importa.
Um menino (é) alegre, quando é amado.
Um menino (é) alegre quando é moleque, travesso.
Brinca, cambaleia, cambalhota, carambola.
Ou, psiu, você, você mesmo menino alegre, divirta-se... , rodopie, brinque trote em seu cavalo de pau. Delicie-se das descobertas que o mundo lhe aponta. Não tenha medo das quedas, porque elas não existem, mesmo que muitos o digam o contrário. E fique tranqüilo, pois sendo quem és sempre terá um travesseiro macio, cheirando a canela, para repousar após um dia de estripulias. E sempre, não obstante de idade, nem tão pouco de distancia, e acima de qualquer coisa, pare de brigar para ser aquilo que você já é, acredite, o mundo é teu.


A.R
12 de junho de 2010

(Do menino que sou, para o menino que és..., para um amigo querido)

domingo, 18 de abril de 2010

Somente um beijo e Adeus I



Faz um tempo que as coceiras começaram. Pensei se tratar das pulgas espaçosas, rainhas do talco. Outrora acreditei serem os bernes alojando-se em minha casca, ansiosos a espera do inverno. Por fim supus uma infecção contagiosa e fatal, que tivesse de uma vez por todas decidido dar cabo de mim, da unha do dedo mindinho do pé esquerdo, ao fio de cabelo inexistente. Porém, nada de respostas me vinham do que estava acontecendo.
Depois de passar e infestar as lacunas da minha geografia, finalmente repousou tranquilamente em minha caixa torácica. A dor lancinante agora dava espaço a uma coceira intermitente.
Inquieto, cansado, e bem aflito, procurei por uma “LUZ” que me tranqüilizasse e por fim o médico. Confesso que por diversas vezes me arrumei e caminhei em sua direção, mas o medo do diagnóstico, da agulha, e da recomendação de psicotrópicos me imobilizaram e me deixaram sem ação.

A terapeuta exclamou:

- Porque você sempre fica com aquilo que não existe?

A entidade esfumaçou em minha face e disse:

- Mice fio, ocê precisa aquetar teu coração. (E me lavou nas águas de Oxum)

Amigos partiram, um viajou, outro mudou, outro se retirou de cena, como se as besteiras e dissensões fugazes fosse mais importantes do que o ponteiro menor marcou durante toda sua estada ao meu lado. A família virou as costas deixando lembranças e vínculos sentimentais difíceis de quebrar, difíceis de conciliar. Porém outros queridos começaram a aparecer e ocupar seus cantos, só que desavisados e não aptos ainda a decifrar meus códigos, uns calaram-se, outros com suas pseudo-idiossincrasias explanaram, o fato é que apenas os mais sensíveis, suspiraram e me abraçaram. (Alívio Momentâneo).
A.R. 15.04.2010

domingo, 4 de abril de 2010

#


Há entre quem sou e estou uma diferença de verbo que corresponde a realidade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

5 minutos de você



Hoje eu vi você.
Cada um no seu lado e a chuva entre nós.
Muito barulho...
A chuva tamanha e imensa
Que ao tocar os vidros pareciam formar bolinhas de sabão.
Um grito? Não, você não teria ouvido,
Mesmo que tivesse coragem de fazê-lo.
Seu perfume?
Mesmo que o vento sobrasse a meu favor,
Seria diluído com a poluição central.
Do vermelho ao verde num piscar.
E meu reflexo retardatário não conseguiu ver quem te acompanhava.
Apenas percebi..., cabelos revoltos, compridos e lisos como o teu.
O possante veículo que estava não teve forças para alcançar o teu.
Mas você foi obrigado a parar logo à frente.
Desci, corri e bem próximo de ti, você partiu.
Cabisbaixo, fui acolhido por um par de “olhinhos” esverdeados.
Que se soubesse falar, diriam:
“Tudo bem, calma, vai passar!”
Revirei-me por horas,
Com a inútil tentativa de molhar meu travesseiro
Como as minhas vestes de hoje à tarde.
Mas foi impossível.
Preso, sufocado, o máximo que conseguiu foi chegar aqui e dizer que....
(DESCULPE, OS CINCO MINUTOS COM VOCÊ ACABARAM).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PONTA PÉ


“Tudo o que você precisa é amor”.
(se na primeira pessoa não for ficção daquilo que realmente é, então não sei o que é ficção)

Quando ouvi esta frase eu me pus a perguntar o que isso significa. É algo tão estranho e tão obvio pra mim que eu me perco. Neste instante eu entendi que tudo aquilo que eu achava na verdade não era... E o que era então? A imagem que vinha em minha mente era como se caísse na cabeça de um cidadão uma rolha e ele por nunca ter tido contato com tal simples objeto, não o reconhecesse. Então eu me pus a procurar... nos outros, nas paixões, nos contatos, no sexo, no cheiro, uma fileira de corpos sem RG e sem face. Algumas rosas apareceram no meio desse espinhal, mas ainda eu não estava preparado para enxergá-las. Então eu me dediquei ao físico, pois para se ter amor você precisa ser belo, acreditei. Comecei a caminhar, em pouco tempo estava na academia, natação, musculação, condicionamento físico e quilos e mais quilos escorriam pela esteira abaixo. Quase no “padrão” percebi que não, não era isso que estava procurando. Neste instante eu tive a certeza absoluta que para conseguir aquilo que eu realmente desejava (mesmo sabendo que muitas vezes não tinha idéia do que seria), eu teria que ser um cara bem sucedido. Foi neste momento que abandonei tudo, o trabalho que me dilacerava, burro, burocrático e sem algo maior, dinheiro, apenas dinheiro. E me atirei na profissão que tinha escolhido pra mim e viajei em mundos até então desconhecidos, em classes das mais variadas, em gêneros, dos inocentes aos mais infames e... me perdi nas crônicas de tele-novela. Um dia desses acordei, quando não se quer mais nada, e demorei muito tempo para me desvencilhar dos travesseiros e cobertores. Meio tonto ainda abri a geladeira, um copo de leite, uma colher de doce de leite, uma banana e uma garfada no bolo embolorado. Liguei o som e fui tomar banho. Foi quando eu me olhei no espelho e não me reconheci. O que eu via era um ser apático e apavorante, tão sem vida, sem forças como eu nunca tinha visto. Percebi que estava sozinho, sem dinheiro, sem carreira, sem o corpo malhado, sem os outros que por tantas noites amenizaram minhas lamurias, sem nada. Então adoeci, e me entreguei ao mais profundo sofrimento. Não, não Hesitei e me fechei em minha alcova e ali permaneci durante muito tempo. Aos poucos foram aparecendo às chagas, e uma a uma eu fui cutucando, limpando, cuidando e curando. Procurei-me nas fotos, nos livros, nos perfumes, nos artigos de jornais, nas cartas e.... nada. Nada de mim. Quando mais eu me revisitava mais triste se tornavam os meus dias, mais vazio eu me sentia. Um encontro muito tempo esperado me colocou diante de pessoas que conseguiam olhar nos meus olhos e me ver, assim, como eu realmente era. Amigos. A menina dos meus olhos havia sido liberta, e de vez, e pra vida. Neste tempo de permanência “fodástica” de minhas férias eu encontrei aquilo que estava procurando, simples assim, e essa imagem nunca mais sairá da minha cabeça: Um homem, uma mulher e uma menina-flor, que juntos brincavam na beira do mar. Neste instante eu entendi a frase que tanto me atormentou, e que me fez hoje escrever, e percebi que o que tanto procurava esteve o tempo todo comigo, dentro de mim, preso, frágil e com medo. Dez dias para o amor nascer em mim, cinco minutos de você, milhões de segundos interligados de felicidade. Durmo feliz e certo do dia de amanhã para todos, mesmo crente que muitos não o “Verão”. A todos um novo ano. E se posso pedir algo, desejo a vocês o meu maior presente: O silêncio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Tc...


Oi ...
Oi...
Td bom?
Td e vc?
Tc de onde?
SP e vc?
Idem.
Idade?
35 e vc?
42.
Procura o que?
Ah sei lá..., a principio uma conversa..
Ah.. deixa quieto.
Mas...
*
Oi...
Oi...
Tc de onde?
Cara, quero sexo e vc?
Ah..., deixa quieto.
*
Oi...
Oi...
Td bem?
Td e vc?
Bem...tc de onde?
SP e vc?
Ah cara, muito longe to em Floripa, boa sorte.
*
Oi...
Ola.
Td bem?
Otimo, tc de Minas, solteiro, 1,85, 75kg, atlético e você?
Deixa pra lá, muito normal pra você.
*
Oi....
Oi....
Oi....
(silêncio)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

- Não Trisca em Mim!


Os gritos vieram de um carro com faróis acesso parado ao lado de uma arvore centenária, umas das ultimas que se pode encontrar no centro da cidade. De uma porta vestindo um pequeno vestido azul claro prateado, cabelos longos pretos e bagunçados, maquiagem forte quase que criando uma nova face e sapatos de salto alto nas mãos; “ELA” saiu correndo afobada. Da outra porta saiu um rapaz franzino, de calças jeans surradas, camisa bolo branca amarrotada, óculos finos e sapato marrom. ELE era muito branco e ainda mais por estar com uma impressão pálida e uma respiração ofegante.
- Não trisca em mim! Ela disse para ele apontando uma navalha.
- Me devolve o que você me roubou! Enfurecido pediu o rapaz.
- Não roubei nada de você, tá louco?
O rapaz, com muita raiva, partiu para cima dela querendo apanhar algo que lhe pertencia e a mesma novamente apontou a navalha para ele.
- Não trisca em mim, não sou mulher, sou travesti. Ta duvidando? Vou te furar!
- Você me roubou sua ladra. Vou chamar a polícia.
Aos berros começou a clamar por socorro, e por mais que fosse auge de uma madrugada quente de primavera e houvesse muitas pessoas na rua, ninguém ousou em se envolver no que estava acontecendo. E quando mais ele gritava pedindo ajuda, mais a “MENINA” se enfurecia, como se realmente tivesse feito algo de errado, como se realmente tivesse portando consigo algo que não era seu.
- Não trisca em mim, não sou mulher, sou travesti. Ta duvidando? Vou te furar! Repetia sistematicamente, sempre apontando a arma que trazia consigo. Aos poucos as luzes dos apartamentos começaram a acender, os cachorros começaram a uivar mais pessoas surgiram para ver o que estava acontecendo. Neste momento se aproveitando da balburdia e da falta de atenção do rapaz, ela saiu correndo pelas ruas e becos escuros do centro velho. Ele sem saber o que fazer e envergonhado por aquela situação, e mesmo passando muito mal, cada vez mais pálido, mesmo assim entrou em seu carro e saiu cantando pneu em sentido contrário ao dela.
Porta trancada, cadeados de todos os tamanhos, chaves e mais chaves e finalmente só. Largou a bolsa em cima da mesa e foi tomar banho. Suada, precisava tirar de si todas as marcas daquela noite, todos os vestígios do outro preso em seu corpo, cada saliva, cada suor, cada essência perdida no meio de suas pernas. Por trás da pesada maquilagem apareceu um menino com olhar triste, quase melancólico... Abriu a geladeira, retirou um pote de sorvete que ainda estava fechado, abriu e começou a comer. De onde estava, sentado no sofá observava atentamente a sua bolsa na cadeira. Ligou a TV nos seus desenhos prediletos e novamente voltou-se ao sorvete. Quando o pote chegou pela metade, já amolecendo; levantou, pegou a bolsa, sentou novamente, abriu-a e retirou dela um coração totalmente debilitado. Vagarosamente o colocou dentro do pote e o confortou no meio de todo aquele creme. Guardou no refrigerador, desligou a TV e foi dormir.

A.R... 11/12/2009