sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Egoísmo De Todos Nós


Deste pequeno somos acostumados a sermos individualistas. Temos a NOSSA mamadeira, nosso cobertozinho, nossa “teta da mamãe”. Já na colégio temos que cuidar da nossa lancheira, do nosso material da escola, dos nossos livros, das nossas notas. Mais tarde nosso primeiro amor, nosso vestibular, nossas provas, nossos desejos e nossas conquistas, e nossos isso, nossos aquilo, nossos, nossos, nossos... E quando mais passa o tempo, mais coisas NOSSAS temos que possuir. No mundo capitalista em que vivemos estar em primeiro lugar é estar em voga. Ter todos os olhos voltados para você, se destacar de uma massa consolidada, contabilizada e reconhecida numericamente é como se você ganhasse um selo por não ser apenas mais uma ervilha como todas as outras uniformizadas numa lata de conserva. Nosso egoísmo está inteiramente relacionado às nossas escolhas. A todo o momento somos postos diante as decisões que poderão reverberar em nossa existência e dos que nos cercam. Depois de certo “amadurecimento”, percebemos que nossas escolhas não se resumem mais em escolher um sorvete ou uma bomba de chocolate, uma bicicleta ou um vídeo game. Qualquer ação gera uma reação de proporção inimaginável. Será que para sermos o que queremos ser, ter aquilo que tanto almejamos e viver de forma tranqüila, não conseguimos ser altruístas? Quem já não marcou aquele jantar com um amigo e ficou meia hora decidindo onde comer? Aquele cineminha que depois de tanto discutir acabam escolhendo o primeiro filme mela cueca que estiver passando? Aquela balada que agrade aos gostos distintos? Isso é o egoísmo que não consegue ficar dentro do peito e é fato que a intimidade o libera de forma despudorada e inconseqüente. Chega um momento nas relações humanas, seja ela pessoal, profissional, afetuosa ou romântica que as pessoas não se poupam mais em obedecer aos seus desejos, mesmos que eles sejam separatistas. E não é estranho depois de uma longa viagem, você parar ao lado de quem tanto ama e ver o outro colocar as malas dentro do carro com um destino diferente do seu. Ontem eu descobri algo novo que é o Egoísmo Mental e eles surge com duas facetas. A primeira dela facilmente poderia ser confundida com Inveja, pois é quando a pessoa envenena seus sonhos revelados com um belo sorriso e palavras de carinho e você só consegue perceber isso olhando nos olhos dela. Repare, dificilmente ela olhará nos seus olhos. A outra é quando você divulga algo tão desejado e a pessoa com o mesmo sorriso, as mesmas palavras de carinho e pior olhando nos seus olhos, deseja no fundo d’alma que esse seu sonho não se realize, pois ele automaticamente o afastaria das coisas que ambas tem em comum. O egoísmo é de todos nós, de todos mesmos, eu também tenho os meus, mas já faz tempo eu aprendi a ceder e você?

Antonio Ranieri (27.11.2009)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

DESPERCEBIDO


Ele acordou com a água batendo no ouvido,
Mais um pouco estaria afogado em águas salgadas.
Quando se deu conta, estava sozinho.
Por mais que se esforçasse seu olhar contemplava o vazio.
E ficou com medo.
Pensou em gritar
Mas o mundo a sua volta estava surdo.
Pensou em sair correndo, se manifestar,
Mas suas pernas estavam paralisadas.
Com muito esforço esticou as mãos,
A resposta veio de imediato, o silêncio.
Mas ele só conseguiu perceber no meio da madrugada.
Então começou a chorar, e chorar e chorar,
E ficou com medo.
Medo de se cansar e despercebido afundar em seu próprio sofrimento.
Então teve pena de si mesmo e se lamentou.
E sofreu.
Sofreu pelo tempo perdido.
Pelas vitorias não alcançadas.
Pelos sonhos que a cada dia ficavam para trás.
E pelas frustrações.
Esta palavra a pior de todas.
Hoje ele estava frustrado!
Então teve vergonha de si e decidiu reagir.
De todas as formas tentou ganhar atenção do mundo.
Lutar, não deixar pra trás a “utopia” de menino.
E se esforçou.
E se esforçou se esforçou muito.
Sentiu uma leve fisgada, mas não parou com medo de perder tempo.
E se esforçou mais, e rapidamente começou a suar.
E se esforçou ainda mais, e os sentidos começaram a falhar.
Um a um os seus sentidos, foram cessando sem que ele percebesse.
Sua vontade de vencer, de ser alguém era tanta
Que não percebeu que seus sonhos
Suas ambições
Suas vontades
Tornaram-se maiores que sua própria vida.

A.R – 19/11/2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Até os urubus Riem


Sexta feira 13 é dia de se cuidar.
Tomar banho de sal grosso.
Mas como ele serve de limpeza é bom tomar um de rosas brancas para energizar.
Ascender uma vela para seu anjo da guarda ajuda muito.
Aproveite também e ascenda uma para seu santo preferido.
E uma para ganhar dinheiro, uma para ter saúde e quantas forem necessárias.

O grande desafio de andar hoje na grande metrópole, é fugir dos desagrados.
Se esquivar das escadas é quase impossível numa cidade que vive em reforma.
Passar longe dos gatos pretos morando no centro chega a ser piada.
No bolso: figa, arruda, dente de alho, sal, pimenta, tudo bem enroladinho num patuá.
Qualquer ação para se proteger é importantíssima.

Deste pequeno aprendi em que sexta feira 13 não se pode rir muito,
Pois no dia seguinte sempre vem o choro.
Assim como dizem que na sexta feira santa não se pode comer carne.
Crendices de família que eu nunca ousei desafiar.
Por via das duvidas iniciei meu dia mais sério do que nunca.

Parece que o dia de hoje ta sendo um teste.
Um monte de coisas bizarras acontecendo.
E como permanecer serio num dia todo,
Com tantas “babaguices’ que vemos ou vivenciamos por ai?

Hoje de manhã eu vi uma pessoa se lamentando à outra.
E a outra ria, gargalhava , mais parecia uma bruxa e não só pela aparência.
Menosprezava, ria e se divertia com o sofrimento da outra.
E dizia: “Nossa você precisa se benzer, sair dessa Uruca!”
Percebi no olhar da menina uma tristeza,
Como se fosse inútil, indiretamente pedir ajuda a outra.
Ela então se levantou, mas antes de sair olhou fulminantemente aquela que rolava de rir em sua poltrona pomposa estilo clássico, deixando claro sua “importância”.

Passado algumas horas aquela que ria muito
Estava saindo para o almoço com tal pressa, que seu dedinho do pé esquerdo não acompanhou o ritmo, e não vendo uma mesa a sua frente se estourou todo.
Naquele instante as gargalhadas enfadonhas dela se cessaram, dando espaço para um grito contido, afinal não poderia perder a classe, afinal ela era a comandante do lugar.

Por alguns instantes o silêncio. Mas quando saiu para ir à enfermaria o riso comeu solto.
No canto da sala como se ninguém estivesse notando sua presença, estava à pobre menina com sua profunda tristeza. Ela por sua vez vendo toda aquela cena, ofereceu ajuda. Em nenhum momento sorriu, ou riu do fato ocorrido. Então eu perguntei o porquê ela estava tão seria afinal tinha sido bem engraçado. Ela então me respondeu.
- Porque hoje é sexta feira 13. Tome cuidado, pois hoje até os urubus riem, mas não saem imunes.

Antonio Ranieri

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Carta a Velha Senhora


''Venho por meio desta'' informar que estou pronto para a viagem.

Pronto, pronto? - Eu não sei.

Mas isso não mais importa.

O fato é que estou disposto e entregue como nunca.

Sim, com muitas dúvidas, perguntas e afirmações.

Mas acreditando que elas serão sanadas com o tempo.

Se é que ele existe aonde vamos.

Minha bagagem está pronta

Antes de decidir pelo o que levar, fiz uma limpeza no meu armário.

Joguei fora todo o excesso, todo o exagero e tudo o que não valia à pena.

Rasguei as magoas, queimei as frustrações, destruí todas as dores presa no meu casco.

Ah, da saudade, eu despejei uma gota na minh'alma antes de sair de casa.

Comigo levo apenas o necessário.

A inocência de menino.

A lembrança dos amigos queridos.

O cheiro da família.

E a memória.

Mesmo sem saber se recordarei de algo após o sinal.

Até o momento você não me informou do preço da passagem.

Sei que o valor varia conforme a necessidade ou a ocasião.

Que no meu caso por ser às pressas e por vontade própria, deverá ser bem caro.

Talvez tenha que pagar por todo o sempre. Tudo bem!

Não precisa me informar agora.

Apenas não se esqueças de dizer no momento em que me der à mão.

O local, ainda não definido, tem me deixado irritado, confesso.

Durante dias, deste que conversamos, eu tenho a procurado.

Perambulo por diversos lugares, e em horários diferentes.

Mas nada de vir me buscar.

No alto da ponte, nos trilhos do trem, nas receitas médicas.

Onde me encontrarei com você?

Peço que você me adiante nada de como será minha nova morada.

Não quero que coisas pequenas e mundanas como o arrependimento me assole num momento de lucidez.

Por precaução estarei anestesiado.

Peço apenas que a viagem seja rápida e sem atritos ou desconfortos.

E não me abandone no meio do caminho, levando apenas metade de mim.

Peço apenas o que me foi prometido, a partida.

Por fim, peço que não demores.

Ou que me dê coragem para ir até você.

Até breve,

Anciosamente.



Antonio Ranieri (04/11/09)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Instinto Pintado em Fênix


Se diário, se agenda, se calendário, se reta, se meta, se seta, se risco, se vivo, se infinco, se permito, se caminho, se proponho ou sonho; não importa. Consolido!


Enfim,
Olhando sempre na linha do horizonte
Viver sem medo.
Beijando me como um beija flor com sede.
Pele doce como o néctar necessário.

Da minha história
A única verdade.
A ansiedade o contraponto do equilíbrio
A necessidade, uma prioridade.
É redundante?

Acreditar
Confiar em mim e no outro.
No outro?
Sim, no outro!
Instinto pintado em fênix.

O Amor como a única ação.
Transformadora
Inovadora
Renovadora
E removedora.
Traço preciso como tatuagem
Espelho de si.

A paciência deixou de ser palavra
Virou símbolo.
Calar-se valorizou mais que moeda de troca.
Ser generoso no reflexo.
Amante na medida.
Menina dos olhos.

E por fim
Orar por lucidez.
E um dia eu. Eu ancião
Repousando minha carne
Num balanço fincando entre duas macieiras
Sorrindo e sentindo a brisa do mar.
Dizer sem medo que vivi.
Como um belo jogo.
Descobrindo e me aventurando
Como os caça tesouros
Que eu li nos tempos de menino



Antonio Ranieri - 22/7/09

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Os Macaquinhos de Piada



“ Não me interesso como as pessoas se movem e sim o que as movem”. Pina Bausch. (In memorian)



Matar ou morrer?
Abrir ou esconder?
Ser feliz ou entristecer?


****


No mundo do “Operação Abafa”, tenho percebido que estão todos se transformando em macaquinhos de piada. O CEGO, O SURDO E O MUDO.
O Cego se nega a ver as coisas que estão acontecendo a sua volta, os crimes passionais, os desastres naturais, as incompetências pessoais.
O Surdo se limita a não prestar atenção no outro. Não ouve um pedido de ajuda, não se dispõe a novas conquistas, não se abre ao que tem de mais humano. Este ao meu ver, é o pior dos “macacos”.
Já o Mudo, contenta-se em calar diante as atrocidades diárias, teme tomar qualquer posicionamento que o retire do estado confortável e mediocremente raso.
Em tempos de despedida, percebo que a mãe natureza “ta fazendo a rapa”. Um a um são levados para O Lugar Desconhecido. Uns são transportados em grupos, outros individualmente, mas todos com os seus medos, incertezas, glórias e histórias, são levados. Todos deixaram suas marcas independente do sucesso. Todos fizeram parte da vida de um outro ser humano e isso é o que há de mais lindo, A TROCA.
Se ser feliz é um estado de espírito? Porque tantas pessoas mesmo se elevando a seres supremos sofrem tanto? Pergunta angustiada do meu coração!
Passagem?
Ensinamento?
Carma?
Respostas que só saberemos ao decorrer da nossa caminhada, sozinhos, e no momento certo. Os desavisados dormirão durante toda a vida, passarão sem perceber o mágico que nela contem, não aprenderão nada, nem saberão o valor de um abraço verdadeiro. E depois de tudo, sem chances a mudanças, com os amigos em volta de si e olhos vedados, acordarão.
Em conversas depressivas de café, um amigo me disse:
- Nós só sofremos Tanto, porque queremos e tentamos melhorar!
Nossa como aquilo atacou meu fígado, e olha que não foi por causa do café pois não tomo. Conhecer-se, é um corte necessário em nossas entranhas, ficam cicatrizes, e uma vez começado não tem como você retroceder. Ir até o final é uma ordem. Querer voltar ao ponto de partida é impossível.
Neste caso se você iniciou sua jornada, não se acanhe, nem se desespere. A vontade de gritar e pular da ponte virá muitas vezes, pois o sofrimento faz parte do Menu, não é opcional. Mas saiba que é possível sim, você encontrar um recanto qualquer em anjos discretos que existem por ai. Como “Blanche Dubois”, ainda é possível acreditar na bondade humana, mesmo que possa aparecer que em volta de si só existam macaquinhos de piada.

Antonio Ranieri 03/07/2009.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

DESCONSTRUÇÃO


João da Silva
Acordou naquela manhã como se fosse a ultima.
Atravessou a cidade contemplando o trânsito.
Trabalhou como louco sem perceber que era sábado.
*
Tropeçou nos papéis como se tivesse bêbado.
Descansou no restaurante como se fosse o máximo.
Devorou a comida como uma máquina.
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.
*
Olhou pela janela com olhar de espanto.
E viu um bicho parado com olhar perdido.
Agonizando na calçada como se fosse lógico
Suplicando ajuda com desespero aflito.
*
Contemplou aquilo como se fosse óbvio.
Ignorou se retirando como se fosse fácil.
Passou de longe como se tivesse medo.
Sem perceber o pacote imóvel como se fosse tímido.
*
Voltou para casa pelo mesmo caminho confuso.
Assistiu à televisão de uma cultura falsa.
Beijou seus filhos com carinho sórdido.
Dormiu com a certeza de um novo dia.
******
João da Silva
Acordou naquela manhã com olhar de espanto.
Correu pela cidade atrapalhando o trânsito.
Chorando sem ver o sábado mágico.
*
Tropeçou nos transeuntes como se fosse louco.
Apoiou-se no poste como se estivesse bêbado.
Mirou a janela com olhar de aflito.
Ao ver o bicho comendo lixo como se fosse príncipe.
*
Gritou de desespero como se fosse estúpido.
Passando a sentir uma utopia triste.
Sentiu a imundice da humanidade como se fosse lógico
E o peso do sofrimento como se fosse lindo.
*
Curvou-se na calçada como um pacote flácido.
Agonizou no chão numa solidão amarga.
Viu o monstro passar de longe com olhar de medo.
Sem perceber a dor que estava sentindo.
*
Desabou em lágrimas como se tivesse perdido.
Flutuou no ar como se fosse um pássaro.
Viu anjos chegarem numa alegria única.
Fechou os olhos sem a certeza de um novo dia.
*******
“Joões da Silva”
Acordaram naquela manhã como almas mortas.
Atravessaram a cidade em passos tímidos.
Seres apáticos não perceberam o sábado lindo.
*
Tropeçaram uns nos outros como se tivessem bêbados.
Gritaram na rua como se fossem loucos.
Cataram comida entre os detritos como se fosse ouro.
Engoliram com alvoroço como se fossem bichos.
*
Destruíram o mundo como se fosse fácil.
E construíram com tijolos um novo desenho ilógico.
Ignoraram-se como se fosse o óbvio.
E maltrataram-se como se fossem sádicos.
*
Não voltaram para casa, pois não lembravam o caminho.
E apodreceram na rua como indigentes.
Causando uma melodia de choros aflitos.
Culpada de uma irracionalidade utópica.
*
Amontoaram-se na praça como judeus no campo.
Agonizaram marcados por um símbolo sólido.
Suplicaram ajuda como se fossem vítimas.
Morreram na contramão implorando a vida.
Antonio Ranieri
(Espero que Buarque compreenda, que Bandeira e Pessoa atravessaram meu caminho nesta tarde fria).